Seguimos na Itinerância de compartilhamentos dos nossos estudos, saberes e reflexões. Trazemos aqui, um breve relato sobre o segundo encontro dos Estudos Compartilhados SABERES EM REDE. Desta vez, nos deslocamos para o CRDSP – Centro de Referência da Dança de São Paulo.

É importante salientar que estes encontros são parte relevante do projeto “QUENUAL – TRAJETÓRIA E CRIAÇÃO”, contemplado pela 31a edição do Programa de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo.
Para imergir no tema proposto para o segundo encontro, voltamos a alguns conteúdos abordados anteriormente nos estudos da Companhia.

A ponte de conexão atemporal, foi a pergunta “O que é negro?” e a “Construção da ideia de negro”.
Numa perspectiva crítica, nos debruçamos sobre os estudos de Frantz Fanon. Importante referência em nossas pesquisas, nascido na Martinica em 1925, Fanon foi médico psiquiatra, filósofo político, teórico do colonialismo e militante da independência africana. Compreendemos Frantz Fanon como autor inaugural para estudar a construção do negro e a construção da negritude, assim como discutir identidade pelo nacionalismo.

Realizamos a apreciação de um vídeo produzido pela Ananse TV, onde Deivison Faustino, professor da Universidade Federal de São Paulo e autor do livro “Frantz Fanon, um revolucionário, particularmente negro”, nos apresenta com maestria um discurso sobre Frantz Fanon.
Neste episódio/palestra, Deivison nos ajuda a perceber Frantz Fanon no Brasil para além do racismo, compreendendo a constituição do capitalismo num país periférico.
Destaca o livro “Pele negra máscaras brancas” onde Fanon afirma: “o branco cria o negro, mas é o negro que cria a negritude”.

Partindo dessa reflexão entramos no tema deste II encontro dos Estudos Compartilhados SABERES EM REDE.

TEMA ENCONTRO II: DANÇAS E O HISTÓRICO INTERNACIONAL DOS MOVIMENTOS NEGROS

Como artistas da realização em dança e pesquisadores negros, estamos buscando construir um caminho de estudos e reflexões mais justo, honesto e coerente com as nossas vivências e identificações de origem ancestral. Neste sentido, para nos lançarmos à compreensão dos movimentos negros internacionais, foi preciso antes construir um caminho que passa pelo primordial entendimento sobre negritude.

Adentramos nos estudos sobre movimentos negros, passando pelas reflexões de apropriação e ressignificação da ideia de negro e a construção da identidade racial pela diferença racial.
Compreendemos todas as resistências negras desde a escravização, como Movimento Negro.
Neste encontro abordamos a Revolução Haitiana, como um dos vários exemplos de resistência negra.
Nossos estudos evidenciam que consideramos as resistências negras ao redor do mundo, fundamentais componentes para estudar os movimentos negros internacionais organizados.

Neste encontro abordamos:
– Pan-Africanismo, idealizado e disseminado no início dos século XX. Movimento de “negritude”;
– Lutas anti coloniais africanas pela independência de países colonizados nas década de 1960 e 1970;
– Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party – BPP);
– Movimento da Consciência Negra (Black Consciousness Movement) Décadas de 60 e 80; – As reivindicações de poder ao povo negro nos Estados Unidos em meio à luta pelos direitos civis nas décadas de 1960 e 1970.
Essas resistências e movimentos organizados, foram importantes passos dados na direção de todas as estéticas artísticas negras, como o teatro negro, o cinema negro, a dança negra entre tantas outras.

Estamos pensando numa teoria que também passa pelo corpo, e este pensamento está sendo cunhado a partir de perspectivas decoloniais. Incluindo as práticas populares como importante área de conhecimento que compõem nossas pesquisas.

O sensível, o abstrato, o subjetivo e corpóreo, são considerados como parte substancial em nossos grupos de estudos. Desta maneira, chegamos ao corpo a partir de Katherine Dunham. Antropóloga, educadora, autora e dançarina nascida em 1909 nos Estados Unidos. Dunham foi uma grande ativistas e militante dos movimentos por direitos civis. Estudar as movimentações da técnica de dança moderna desenvolvida por Katherine Dunham, é mergulhar por um extenso vocabulário corporal desenvolvido ao longo da vida da artista, que dedicou anos de estudo etnográfico sobre as formas de danças caribenhas, especialmente as manifestadas na prática Vodun do Haiti. Em suas pesquisas, Dunham também percorre outros países das Américas como Trinidad Tobago, Jamaica e Martinica.
Através desses estudos etnograficos e pela antropologia, se aproxima dos movimentos civis negros e começa a fazer da dança seu movimento ativista.
Katherine Dunham é um expoente da estética negra nas artes e assumiu sua dança, como potente ferramenta de atuação política.

Para a Cia Pé no Mundo, estudar a técnica de Dunham foi parada obrigatória quando decidimos nos aproximar dos estudos de Mercedes Baptista.
Dançamos e refletimos Dunham, como caminho de compreensão dos nossos corpos e narrativas históricas das danças cênicas negras.

Importante referir que Cláudia Nwabasili e Roges Doglas, estiveram recentemente em Paris/França, onde iniciaram um
projeto-pesquisa na residência artística Cité Internationale des Arts em Paris, por meio do projeto Brasil Cena Aberta em parceria com a Prefeitura de Paris e o Consulado da França. Neste período, tiveram a oportunidade de aprofundar seus estudos corporais nessas técnicas a partir da pesquisa de Eneida Castro. Bailarina e coreógrafa brasileira radicada em Paris, falecida em 2020. Eneida Castro, desenvolveu sua própria metodologia de trabalho, e dedicou-se a manter vivo o legado de Mercedes Baptista e Katherine Dunham. Em Paris, tivemos a maravilhosa experiência de estudar com dois discípulos de Eneida Castro. Kathy Manyongo ex- bailarina da Companhia de Eneida Castro e Jean-Michel Frénéa, ex assistente e atualmente professor responsável por dar seguimento a escola técnica de Eneida.

Em cada encontro deste grupo de estudos, temos a possibilidade de (re)pensar, (re)construir, (re) dançar e (re)criar nossas histórias.

Seguimos à passos largos. Estamos abrindo nossos arquivos!

Nos encontramos na próxima dança e/ou leitura.

Caminhe conosco!

Cláudia Nwabasili

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